Eu tive infância

Oh! que saudades que tenho

Da aurora da minha vida,

Da minha infância querida

Que os anos não trazem mais!

Casemiro de Abreu derramou saudades no papel quando escreveu o poema “Meus oito anos”. O poeta nos remete a mergulhar no tempo numa tarefa deliciosa, cheia de saudades, mas impossível, pois o tempo não volta, quem viveu e soube viver viveu e soube viver, quem não, sinto muito, mas já era.

Eu tive infância e, das boas, recheada de aventuras, de travessuras, coisas ocultas, de descobertas e, claro, de traquinagens. Pulei o famoso muro das irmãs para roubar frutas, atirei e matei no pirão (me recuava a morrer), fui polícia, mas também fui bandido, passei no caminho do inferno (chorando, mas passei). Roubei bandeirinha, fui pego na pira, salvei a galera na mancha e segurei para quebrar um galho a saladinha para as meninas (nunca pulei, só escondido). Fui melancia, fui caba, fiquei no céu, no inferno e no purgatório. Boca de forno, jacarandá... tempos bons, saudade faceira que desfila na mente igual paixão adolescente (essa parte melhor pular).

Nos poeirinhas da vida fui craque, marcador de gol. Também fui nos baixos tirar pau para fazer as traves, peguei peixinho no pulsar para colocar no tanque. Fiz caçada no campo do Batista atrás de Caga-terreiro e de manga verde com sal escondido na dobra do calção, pois cueca era luxo de menino rico. Me aventurei depois do cemitério para beber água de coco e matar rolinha para comer feito farofa com resto de arroz do almoço.

Na escola chegava uma hora antes para jogar bola, brincar da pira e chegar na sala puro urubu molhado. Na peteca e no pião era veleiro e donos de muitos terreiros, saia de casa com quatro e voltava coma camisa cheia, mas também fui alelado de ter que tomar emprestado. Nunca gostei de papagaio, mas ainda arrisquei por folia, mesmo não levando jeito. No final da tarde ficava no barranco, na beira da escada esperando o batelão que vinha de Cruzeiro só para ver se meu pai trazia pão.

Não fui de festa, mas acordava na madrugada para ir no Clube do Noé ou no Clube Anos Dourados para juntar figurinhas de chiclete para duelar de bate-bate no intervalo. Lacei boi alheio, só por aventura, fiz boi chorar para simplesmente bolar no chão de rir (pegava um bagaço de laranja e enchia de pimenta malagueta e dava para o animal comer, era malvadeza, mas para nós divertimento garantido)

Assisti em preto e branco minhas primeiras novelas Pantanal e Ana Raio e Zé Trovão novelas de família. Conheci o Jaspion, Flashman, Jiraiya, Changeman, Black Kamen Rider, Jiban e outros, mas foi no Chapolin Colorado e no amigo Chaves que encontrei a felicidade na TV.

Para finalizar esse mergulho saudosista vou na Cunha Vasconcelos, minha primeira escola, minha primeira professora tia Genir, também estudei com a professora Ivanilde (ensinava nós a chiar kkkk), levei uns gritos do mestre Jeremias e me apaixonei pela doçura da professora Dalva. E como numa magica estava no ginásio com um monte de professores e matérias que nem sabia que existiam e, assim, me desencantei pela escola e me apaixonei pelos livros e pelas meninas (risos). Fui palhaço de circo (inclusive fugi com um circo), comecei a namorar e a vida deu uns pulos e logo já estava adulto com contas nas mãos, uns bruguelos me chamando de pai e uma mulher dizendo não coloca roupa no chão, o que eu encontrar jogado no meio da casa vai para lixo. Mandei o mundo parar pois queria descer, no entanto não parou. Pensei foi castigo por roubar mais o Elvis e o Alexandre as hostis do Padre Pedro na hora de tocar o sino e ler os recados na boca de ferro.

O restante vai ficar para uma próxima escrita. Se você também viveu a velha e boa infância interaja com o blog e vamos mergulhar no mundo mágico da saudade, pois é a única coisa que nos resta.


Comentários

  1. Excelente meu amigo, muitas dessas aventuras pude viver e seu texto me fez voltar um pouco no tempo. Que saudades...!!!☹️☹️

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  2. Vi minha infância toda nesse texto (rsrsrs)
    Excelente conteúdo, me fez mergulhar (soltar umas lágrimas rsrsrs) no meu passado.
    Parabéns!!!👏👏👏👏

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  3. Sabe amigo...somos ainda fruto de uma geração (passada, talvez) que ainda brincava, corria, sorria, conversava, contava piadas, rodinhas de amigos...coisas tão raras no mundo de hoje....infelizmente sinto que a era da tecnologia roubará cada vez mais esses momentos tao incríveis. Lindo seu texto....Casemiro de Abreu realmente derramou saudades ali...ABRAÇOS!

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