Um boto que virou raia (autobiografia)

1981, oito de janeiro, aproximadamente 16 horas no pequeno Seringal Primavera-Ipixuna-Amazonas, rede do meio do mosqueteiro velho de chitão desbotado, mosquiteiro comprado com a venda de quatro pranchas vendidas clandestinamente para um regatão amigo. Choro rouco, olhos fechados, criança mirada, olhar sem vida, sem dentes e pelado em volta de um cueiro quase novo, só era o segundo parto usado. Filho de número 4 de 8 do casal.

                Senhor Erlindo Bussons de Menezes, o pai, seringueiro analfabeto de pai e mãe, mas sábio na lida do látex e no tiro de 12 que nunca sai do ombro. Veio olhar o pequeno e logo alegrou-se, pois vi ali mais um ajudante na labuta da seringa. A senhora Terezinha da Silva Lopes, a mãe, outra analfabeta, mas sonhadora, tinha a esperança de ter dado à luz um doutor de cidade, um menino sabido que tiraria a família daquela mazela.

        Crescer não pode, pois logo o terrível mal de criança assolou os seringais e o pequeno foi acometido, desenganado e renegado a virar cruz na beira do igarapé. Todavia, um milagre aconteceu e o guri sobreviveu. Para escapar da fome (de tudo) saiu do seringal e posou no Estirão dos Náuas, logo depois veio para a então Vila Rodrigues Alves, onde conheceu pela primeira vez as letras e foi amor à primeira vista e dos livros nunca mais largou.

                Percorreu as escolas Cunha Vasconcelos, Pedro de Melo Correia e logo foi estudar em Cruzeiro do Sul na famosa Flodoardo Cabral (viagem sofrida num barco lotado, saindo na madrugada e retornando à tarde com a barriga conversando com as costas) e lá formou-se em Magistério e no mesmo ano ingressou na UFAC com mérito no curso de Letras incentivado pela sua grande mestra Alexandrina Félix de quem virou fã. Em 2002 trona-se professor da escola Francisco Braga de Souza e logo ganha destaque. Trabalhou como educador nas comunidades rurais Ramal do Bananeira, Ramal do Alexandre, Profeta, Nova Cintra. Na zona urbana construiu legado nas escolas Francisco Braga e Cunha Vasconcelos.

                “Quando os primeiros pensamentos e entendimento de ser gente chegou a mim, logo percebi que viver no seringal era uma sina que para minha vida não queria. No seringal não quis ficar, pois estudo ali não tinha, alimentação menos ainda. Vim e fui, aqui e ali, fiquei, finquei raiz, não sou doutor, sonho de mamãe, mas sou ser pensante, de pensamentos errantes que vivem a vagar. Sinto saudades de uma infância sofrida, entretanto, que me ensinou o valor da dignidade. Tomei muita jacuba com água turva do Juruá, comi cascuda magra dos lagos e cará pescado por dentro dos baixos. Acreditei em mim, me fiz ser para vencer.”

Professor Iderlindo Lopes de Menezes, casado, pai de 6 filhos, amante das letras e apaixonado pela vida.


Comentários

  1. Uma história de vida sofrida
    Mais com momentos inesquecíveis 👏🏽❤

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  2. É meu amigo tudo na vida é com dificuldades.

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  3. A sua história é a minha história e de uma boa parte dos nossos colegas que enfrentavam horas de estômago vazio e barulho de motor para conseguir completar o magistério. Foi realmente muito sofrida, mas o mais importante é que não desistimos e focamos em um futuro melhor. Parabéns por ser um vencedor com um legado brilhante.

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  4. Uauuuu...amei a biografia...escrita com o coração...não era de se esperar menos de uma pessoa como vc meu caro amigo....nossa história fala por nós e a sua mostra muito bem quem é Iderlindo Lopes...poeta, sonhador, ser pensante...rsrs..Abraços!!!!

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